O agronegócio desempenha um papel vital na economia brasileira, respondendo por uma fatia significativa do PIB e das exportações nacionais. Contudo, a política de isenção de taxas de exportação e os vultuosos subsídios ao setor, que somam cerca de R$ 158 bilhões, geram um desequilíbrio crítico: enquanto o agro é favorecido, a indústria nacional carece de incentivos equivalentes. Essa disparidade não apenas reforça desigualdades setoriais, mas também contribui para o atraso tecnológico do Brasil.
Importante, mas Prioritário Demais?
A relevância do agronegócio para a segurança alimentar e a balança comercial brasileira é inegável. O setor abastece o mercado global, movimenta bilhões na economia e sustenta milhões de empregos. No entanto, a dependência excessiva de commodities agrícolas compromete a diversificação econômica, um fator crucial para o avanço tecnológico e o desenvolvimento sustentável do país.
A concentração de políticas de incentivo quase exclusivamente no agronegócio deixa a indústria nacional em segundo plano. Historicamente, a indústria foi o principal motor de inovação e desenvolvimento tecnológico no Brasil. Hoje, ela enfrenta dificuldades para competir em um cenário marcado por altos custos, escassos investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e pouca atenção governamental.
Enquanto o agronegócio avança com o uso de insumos importados, como tecnologia de mecanização e biotecnologia, a indústria nacional luta para sobreviver em um ambiente desfavorável, ampliando o desequilíbrio entre os setores e prejudicando o progresso econômico do país como um todo.
O Preço do Atraso Tecnológico
A ausência de incentivos robustos à indústria impacta diretamente o desenvolvimento tecnológico do Brasil. Indústrias como a de fabricação, eletrônica e tecnologia da informação enfrentam dificuldades para competir no mercado global, resultando em:
- Desindustrialização: a participação da indústria no PIB caiu de cerca de 30% nos anos 1980 para menos de 10% em 2024.
- Baixos investimentos em P&D: enquanto os países desenvolvidos destinam cerca de 2% a 3% do PIB em inovação tecnológica, o Brasil investe menos de 1%.
- Fuga de cérebros: a falta de investimentos e oportunidades faz com que cientistas e engenheiros busquem as melhores condições no exterior.
Sem uma indústria forte, o Brasil permanece dependente da exportação de commodities de baixo valor agregado e da importação de tecnologias avançadas, perpetuando sua posição de país periférico no cenário global.
Um modelo sustentável é possível
Embora a produção de alimentos seja, sem dúvida, essencial, o Brasil precisa adotar uma abordagem equilibrada para garantir o desenvolvimento sustentável de todos os setores. Algumas sugestões incluem:
- Diversificar os incentivos fiscais e financeiros: distribuir benefícios entre o agronegócio, a indústria e o setor de tecnologia.
- Apoiar a industrialização do agronegócio: promover a transformação de commodities em produtos de maior valor agregado, como alimentos processados e biocombustíveis.
- Investir em tecnologia e educação: aumentar significativamente os recursos para Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e estimular a formação de profissionais formados em áreas de alta tecnologia.
- Criar políticas industriais estratégicas: incentivos a setores-chave, como inteligência artificial, energia limpa e produção avançada, para reduzir a dependência de importações.
O agronegócio é, sem dúvida, um pilar fundamental para a economia e a segurança alimentar do Brasil. No entanto, concentrar todos os esforços exclusivamente nesse setor pode comprometer o desenvolvimento tecnológico e industrial necessário para o futuro do país. É imprescindível que o Brasil adote uma visão estratégica equilibrada, promovendo tanto a competitividade agrícola quanto o fortalecimento da indústria e da inovação.
Investir no avanço tecnológico não se limita à geração de riquezas; trata-se também de garantir a independência econômica e a sustentabilidade de longo prazo, consolidando o país como uma verdadeira potência global.
