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A Evolução da Segurança Pública no Brasil: Dos Coronéis à Proposta de Unificação

A Evolução da Segurança Pública no Brasil: Dos Coronéis à Proposta de Unificação

 

Dos Coronéis à Proposta de Unificação


A história da segurança pública no Brasil está profundamente ligada às transformações políticas e constitucionais do país. Desde o período imperial até os dias atuais, a organização das forças de segurança reflete disputas de poder, descentralização e os desafios de um sistema federativo complexo.


A Federação e o Poder dos Coronéis (1891)


A Constituição de 1891 marcou a consolidação da República e a vitória das oligarquias regionais, conhecidas como "coronéis". Uma das principais mudanças foi a introdução do federalismo, transferindo para os estados — e não mais para o poder central — a responsabilidade pela demarcação de terras e pelo controle da ordem pública.


Essa descentralização fez com que os estados assumissem o comando das polícias judiciárias (Polícias Civis) e ostensivas (Polícias Militares), criando um modelo em que cada unidade federativa gerenciava sua própria segurança. Essa estrutura permaneceu mesmo após a Constituição de 1988, que elevou os municípios à condição de entes federados, permitindo a criação de guardas municipais para proteger equipamentos públicos e ordenar o trânsito e o comércio local.

A Atuação da União e os Limites do Poder Federal


Enquanto os estados controlam suas polícias, a União tem atuação mais restrita, limitando-se à Polícia Federal (investigação de crimes contra bens da União) e às Polícias Rodoviária e Ferroviária Federal. No entanto, apesar de não ter controle direto sobre a segurança pública nos estados, o Presidente da República acaba sendo responsabilizado politicamente por problemas nessa área — uma contradição que gera desafios na gestão da segurança nacional.


Os Desafios da Fragmentação e o Controle das Polícias


Um dos maiores problemas do atual modelo é a falta de coordenação nacional. As polícias estaduais muitas vezes atuam de forma independente, sem integração efetiva entre si ou com a União. Em alguns casos, há até mesmo infiltração de agentes em organizações criminosas, que atuam paralelamente ao Estado, controlando territórios e até mesmo oferecendo "segurança privada" ilegal.


A Proposta de Unificação e o Fim da GLO


Diante desse cenário, o governo federal apresentou uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que busca criar uma coordenação nacional da segurança pública, sem retirar o poder dos governos estaduais sobre suas polícias. Entre as principais mudanças estão:

  • Ampliação das atribuições da Polícia Federal, incluindo o combate a crimes ambientais e organizações criminosas (milícias, narcotráfico).

  • Transformação da Polícia Rodoviária Federal em uma força ostensiva civil, capaz de atuar em apoio aos estados quando necessário.

  • Fim do uso das Forças Armadas em operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), substituindo-as por uma polícia federal especializada.


A proposta também abre espaço para um debate crucial: a retirada da GLO da Constituição, evitando que as Forças Armadas sejam usadas em conflitos internos — uma prática que, historicamente, tem sido associada a regimes autoritários.


Por Que Essa Mudança é Urgente?


O Brasil ainda vive as consequências de discursos que defendiam a "intervenção militar" como solução para crises políticas. A proposta de unificação da segurança pública pode ser um passo importante para:


  • Reforçar o caráter civil da segurança, evitando a militarização da ordem pública.

  • Melhorar a integração entre estados e União, combatendo o crime organizado de forma mais eficiente.

  • Preservar o papel constitucional das Forças Armadas, que devem focar na defesa nacional, e não em ações policiais internas.


A segurança pública no Brasil precisa de um modelo mais integrado e eficiente, sem abrir mão do federalismo. A PEC em discussão pode ser um avanço significativo, desde que acompanhada de medidas que fortaleçam o controle democrático e a transparência nas polícias.


O momento é oportuno para repensar não apenas a estrutura das forças de segurança, mas também o papel do Estado na garantia dos direitos fundamentais. Afinal, uma sociedade segura é aquela em que as instituições funcionam — sem autoritarismos e com justiça para todos.