O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforça, mais uma vez, seu compromisso com a integração latino-americana ao participar da IX Cúpula da Celac, nesta quarta-feira (9), em Tegucigalpa, Honduras. O encontro reúne os 33 países da América Latina e do Caribe e tem como pauta central questões urgentes como mudanças climáticas, segurança alimentar e, principalmente, o fortalecimento da atuação regional no cenário internacional.
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Uma das propostas mais ousadas do Brasil durante a cúpula é a articulação de uma candidatura única da região ao cargo de secretário-geral da ONU. A defesa de que seja uma mulher a representar a América Latina e o Caribe simboliza um avanço não apenas na equidade de gênero, mas na correção de uma dívida histórica da comunidade internacional, que jamais teve uma liderança feminina na chefia das Nações Unidas.
A proposta vai além da representatividade. Ela é uma tentativa de romper com a hegemonia geopolítica tradicional, que historicamente marginaliza vozes do sul global. O Brasil, ao buscar consenso regional, mira uma influência maior num palco onde ainda é visto como coadjuvante, mesmo com seu peso econômico e social.
Outro destaque da participação brasileira é o convite para que os países da Celac se engajem na Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza, iniciativa lançada sob a presidência brasileira do G20. O objetivo declarado de erradicar a fome até 2030 soa ambicioso — e talvez utópico — diante das desigualdades persistentes na região. Ainda assim, a proposta aponta para um caminho possível: o da cooperação multilateral como resposta aos desafios mais urgentes da humanidade.
Vale lembrar que o Brasil se afastou da Celac em 2019, durante o governo anterior, sob o argumento de que o fórum não oferecia resultados concretos. O retorno em 2023, já no novo governo Lula, simboliza a revalorização da diplomacia regional como estratégia de desenvolvimento e estabilidade. O gesto político é claro: não há futuro sustentável para o Brasil isolado da América Latina.
Com um PIB conjunto de cerca de US$ 7 trilhões e uma população superior a 670 milhões de pessoas, a Celac reúne potencial para ser um bloco estratégico em escala global. A produção de alimentos e a abundância de fontes renováveis de energia, como solar e eólica, são ativos valiosos num mundo que clama por soluções sustentáveis.
Resta saber se, além do discurso e das boas intenções, haverá vontade política coletiva suficiente para transformar essa visão em realidade. O Brasil parece disposto a liderar — mas, como sempre, a liderança exige mais do que voz ativa: exige escuta, equilíbrio e compromisso com os interesses de todos.
