O Leviatã de Hobbes e os Dilemas Atuais da Democracia: O Que a Filosofia Política Ainda Tem a Nos Dizer?
A literatura clássica permanece atual, especialmente quando se trata de compreender os desafios contemporâneos. Esse é o caso de Leviatã, obra de Thomas Hobbes, que ainda lança luz sobre temas como poder, Estado, autoridade e convivência social.
Thomas Hobbes e a Ideia de Estado Forte: Solução ou Ameaça?
Vivemos tempos de polarização política, onde a confiança nas instituições públicas está em queda e discursos de ódio se espalham pelas redes sociais. Hobbes, escrevendo no contexto da Guerra Civil Inglesa, via o ser humano como essencialmente egoísta e competitivo. Para ele, a única forma de evitar o caos seria por meio de um Estado forte e centralizado, capaz de garantir ordem e segurança.
Hobbes no Século XXI: Reflexos na Política Atual
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Crise de autoridade: A perda de legitimidade dos governos, a ascensão do populismo e o descrédito das normas democráticas refletem a tensão entre ordem e liberdade descrita por Hobbes.
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Segurança como prioridade: A ideia hobbesiana de que o Estado existe para proteger os cidadãos ressurge em discursos contemporâneos de “lei e ordem”, muitas vezes usados para justificar medidas autoritárias.
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Mobilização das emoções: Hobbes defendia o uso do medo e da esperança para garantir a coesão social. Hoje, vemos esses mecanismos em ação através das redes sociais, que frequentemente exploram o medo do “outro” para alimentar divisões.
Egoísmo, Individualismo e a Falta de Solidariedade
A filosofia política de Hobbes retrata os indivíduos como essencialmente voltados ao próprio interesse. Essa visão encontra eco em sociedades marcadas pelo consumismo, pela competição exacerbada e pela demonização do diferente.
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O outro como inimigo: O discurso polarizado transforma o adversário em inimigo. Migrantes, populações LGBTQIA+, pessoas pobres ou com ideias divergentes são frequentemente vistos como ameaças a serem combatidas, não cidadãos a serem respeitados.
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Ausência de empatia: A falta de reconhecimento mútuo, central no pensamento hobbesiano, está presente em políticas públicas que mantêm desigualdades estruturais e excluem minorias dos processos decisórios.
O Papel do Estado Hoje: Controle ou Emancipação?
Para Hobbes, o Estado deve controlar não apenas as ações, mas também os pensamentos dos cidadãos. Ele temia que outras instituições – como a Igreja em sua época, ou a mídia digital na atualidade – interferissem na obediência ao poder soberano.
Hobbes, redes sociais e a batalha pela verdade
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Controle ideológico: Em tempos de desinformação e fake news, cresce o debate sobre o papel do Estado na garantia de uma educação crítica e cidadã que prepare as pessoas para resistir à manipulação informacional.
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Disciplina ou democracia?: Embora Hobbes visse a disciplina como essencial para a ordem, os movimentos sociais contemporâneos demonstram que a repressão não basta. Mulheres, negros, indígenas e LGBTQIA+ não pedem silêncio, mas reconhecimento e igualdade de direitos.
Hobbes ou Rousseau? O Debate Sobre a Natureza Humana Continua
Enquanto Hobbes acreditava na natureza conflituosa do ser humano, Jean-Jacques Rousseau via o homem como bom por natureza e corrompido pela sociedade. Em pleno século XXI, essa dicotomia ainda alimenta debates sobre como estruturar o Estado e garantir justiça social.
Talvez a resposta esteja no equilíbrio: precisamos de um Estado forte o suficiente para garantir segurança, mas democrático o bastante para proteger as liberdades individuais. A filosofia nos ensina que é possível pensar em instituições que, em vez de reprimir, emancipem.
O Leviatã Ainda Vive?
As ideias de Hobbes permanecem vivas nas discussões políticas atuais. A pergunta que fica é: queremos um Estado que controle ou que emancipe? Que se baseie no medo ou na solidariedade?
A filosofia política, ao revisitar clássicos como Leviatã, nos convida a refletir:
Somos mesmo naturalmente egoístas ou capazes de construir uma sociedade baseada na cooperação e no reconhecimento mútuo?
O Leviatã Entre Nações: Hobbes e as Guerras Entre Estados
Se, no plano interno, Hobbes propõe um Estado soberano para controlar os impulsos destrutivos dos indivíduos, no plano internacional, a situação é bem diferente. Para ele, os Estados soberanos se relacionam entre si da mesma forma que os indivíduos no estado de natureza: sem um poder superior que regule seus conflitos.
Em outras palavras, a guerra continua sendo uma constante entre as nações, pois não existe um “Leviatã global” capaz de impor regras, garantir a paz ou julgar disputas de forma definitiva. Essa leitura nos ajuda a entender por que, mesmo com tratados e instituições internacionais, vivemos sob o risco permanente de conflitos armados.
O Sistema Internacional Segundo Hobbes
No cenário global, os Estados agem como indivíduos movidos por:
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Desconfiança (precaução contra ataques),
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Desejo de poder (busca por recursos, influência ou prestígio),
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Instinto de autopreservação (preparação para a guerra mesmo em tempos de paz).
Essa lógica hobbesiana antecipa o que, séculos depois, seria chamado de realismo nas relações internacionais: uma visão que entende o mundo como um campo de disputa entre forças estatais, onde a paz é frágil e temporária.
O Medo como Motor da Política Externa
Assim como Hobbes acreditava que o medo da morte justificava a criação do Estado, no cenário internacional é o medo de ser atacado ou dominado que justifica:
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Investimentos em defesa e armamento, muitas vezes acima de necessidades sociais básicas;
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Alianças estratégicas frágeis, baseadas em interesses momentâneos e não em princípios éticos duradouros;
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Guerras preventivas ou justificadas pela "segurança nacional", mesmo quando os riscos são hipotéticos.
O resultado é um mundo onde a segurança plena é impossível, e os esforços por paz convivem com a preparação constante para a guerra.
Hobbes e o Mundo Atual: O Leviatã Está em Crise?
Vivemos um momento histórico marcado por instabilidade geopolítica, disputas por território, recursos naturais e influência ideológica. A guerra na Ucrânia, os conflitos no Oriente Médio, as tensões no Mar do Sul da China e a nova corrida armamentista entre potências refletem a ausência de um poder supranacional legítimo, como alertava Hobbes.
Mesmo com a existência da ONU, da OTAN e de tribunais internacionais, a soberania estatal ainda se sobrepõe à justiça internacional, e o uso da força continua sendo uma ferramenta legítima nas relações entre Estados.
Caminhos Possíveis: Entre o Medo e a Cooperação
A filosofia de Hobbes nos ajuda a compreender as raízes do conflito, mas também nos alerta sobre os limites da política baseada apenas no medo. Se os Estados continuam presos à lógica da autopreservação a qualquer custo, dificilmente haverá espaço para uma paz duradoura ou cooperação global verdadeira.
Assim como propusemos no plano interno, talvez também no plano internacional a resposta esteja no equilíbrio:
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Fortalecer instituições multilaterais, sem abrir mão da soberania, mas buscando regras comuns;
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Promover a diplomacia como ferramenta principal, em vez de recorrer à força;
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Reforçar o valor da solidariedade internacional, especialmente diante de desafios globais como a crise climática, pandemias e desigualdade.
Filosofia Política Além das Fronteiras
Ao revisitar Leviatã, percebemos que a obra de Hobbes não é apenas uma reflexão sobre o poder interno dos Estados, mas também um alerta sobre os perigos da anarquia internacional. Seu pensamento permanece fundamental para compreender os desafios do século XXI, tanto dentro das fronteiras quanto fora delas.
E você?
Acredita que a paz entre as nações pode ser construída com base na cooperação? Ou a natureza competitiva dos Estados torna os conflitos inevitáveis? A resposta pode não apenas influenciar nossa visão de mundo — pode moldar o futuro da humanidade.
