CPI das Apostas: Promoção pessoal substitui investigação séria no Congresso
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Apostas Esportivas, instaurada com o objetivo de investigar possíveis irregularidades e impactos sociais do setor, está sendo usada como trampolim para promoção pessoal, política e até midiática. O caso mais recente e simbólico dessa distorção aconteceu com o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG), que transformou seu tempo de fala em um momento de tietagem com a influenciadora Virgínia Fonseca, convidada a depor por conta de sua atuação como garota-propaganda de casas de apostas.
Durante a sessão, o senador surpreendeu os colegas ao pedir que Virgínia gravasse um vídeo mandando um abraço para sua esposa e filha — um gesto que, embora pessoalmente legítimo, foi interpretado como inadequado e superficial diante da seriedade da CPI. Cleitinho também defendeu a influenciadora, alegando que o Congresso "não tem moral" para julgá-la e chegou a elogiar os produtos que ela vende, desviando completamente do escopo jurídico da comissão.
Promoção política disfarçada de fiscalização
O episódio foi amplamente criticado por parlamentares mineiros, incluindo as deputadas Lohanna França (PV) e Duda Salabert (PDT), que apontaram a atitude do senador como conivente com práticas questionáveis e como um sinal claro de que a CPI está servindo a interesses pessoais.
A consequência mais emblemática da exposição gerada por esse comportamento foi o anúncio público do ex-prefeito Alexandre Kalil, que declarou ser oficialmente pré-candidato ao governo de Minas Gerais após o episódio. Kalil, que já vinha demonstrando interesse, aproveitou a repercussão para se posicionar como uma alternativa política ao próprio Cleitinho, seu possível rival eleitoral em 2026.
Ou seja, a CPI que deveria investigar abusos no mercado das apostas tornou-se palco de campanha antecipada e autopromoção parlamentar, sem qualquer consequência legal imediata para os envolvidos.
Uma CPI sem fundamento jurídico?
O objetivo de uma CPI, segundo a Constituição, é investigar fatos determinados com base em indícios concretos, reunir provas, responsabilizar os envolvidos e encaminhar conclusões ao Ministério Público. No entanto, o que se tem visto são sessões repletas de discursos emocionais, defesas pessoais, estratégias de marketing e pouquíssimos avanços investigativos.
A presença de influenciadores como Virgínia, por mais relevante que seja do ponto de vista midiático, não pode se sobrepor à seriedade de uma apuração parlamentar. As consequências sociais do vício em apostas, especialmente entre jovens e população de baixa renda, deveriam ser o foco do debate — mas acabam sendo ofuscadas por gestos populistas e trocas de elogios públicas.
A plateia é o povo — e está sendo feita de palhaça
Ao final, quem sai prejudicado é o cidadão comum, que esperava uma apuração rigorosa sobre os danos causados por um setor bilionário e pouco regulado. A CPI das Apostas tem servido muito mais como vitrine política e de marketing pessoal do que como instrumento legal de investigação.
Em vez de respostas e responsabilizações, o que se vê são vídeos fofos, frases de efeito e anúncios eleitorais indiretos. O Brasil não pode continuar naturalizando esse tipo de espetáculo no lugar de soluções reais.