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Entre ruas e redes: o êxito simbólico de um ato na era do conflito permanente

São Paulo (Brasil), 29/06/2025 — Apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro participam de manifestação neste domingo, na Avenida Paulista, em São Paulo. Foto: EFE / Sebastião Moreira.

 


O sucesso ou fracasso de uma manifestação, como a recente mobilização bolsonarista na Avenida Paulista, não pode mais ser calculado apenas pelo número de corpos que marcham juntos. É preciso olhar para onde as imagens circulam, para os rastros que deixam nos algoritmos, para o fôlego que ganham na opinião pública digitalizada. Nas palavras de Chantal Mouffe, vivemos em uma democracia onde o conflito — ou “agonismo” — é a essência da vida política. Nesse sentido, cada ato de rua, mesmo esvaziado numericamente, pode inflamar a polarização nas redes e realimentar antagonismos que mantêm o jogo democrático em movimento.




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Não é de hoje que as ruas e as redes se interpenetram. Hannah Arendt, em A Condição Humana, lembrava que toda ação política visa aparecer, ganhar visibilidade. Se antes esse “aparecer” acontecia nas praças públicas, hoje é mediado por câmeras de celular, transmissões ao vivo, memes e hashtags. Assim, a Avenida Paulista se torna não apenas um território físico, mas um estúdio a céu aberto, onde cada fala de apoio ou ataque ao Supremo Tribunal Federal se multiplica em vídeos, cortes e análises.


É nesse terreno que o bolsonarismo continua pulsando. Ainda que lideranças de oposição, como Jandira Feghali ou Paulo Teixeira, ridicularizem a adesão do público, o ato cumpre outra função: tensiona a narrativa nacional, realimenta a crítica às instituições, mantém viva uma base que se reconhece no discurso de perseguição. Como ensinou Theodor Adorno, a indústria cultural — hoje potencializada pelos algoritmos — transforma até o gesto mais vazio em mercadoria simbólica. A imagem de Bolsonaro cercado por “malucos”, para usar o termo que ele mesmo cunhou, não desaparece no dia seguinte: ela se reinventa em memes, slogans e provocações que resistem ao esquecimento.


Por isso, medir a força política apenas por drones que capturam multidões é insuficiente. O que importa, como sublinha Mouffe, é o potencial do ato de alimentar antagonismos. Enquanto houver quem compartilhe a foto da Paulista vazia para zombar, haverá quem a conteste, quem a reinterprete, quem a transforme em combustível para a próxima convocação. É a dinâmica do conflito que impossibilita o consenso absoluto — e protege a própria democracia de se tornar um monólogo.


Em suma, o sucesso ou fracasso de um ato político não se esgota nos números oficiais de presentes. O palco se estende muito além da rua. Ele se amplia em cada comentário, curtida, ironia ou hashtag viralizada. E enquanto houver repercussão, há vida política. É nessa fricção, entre aplausos e vaias, que o jogo democrático respira — mesmo quando um lado jura que o outro já morreu.


Quando a rede vira grade: o risco da regulamentação como ferramenta de silenciamento


Se as manifestações de rua hoje se prolongam nas redes sociais, é natural que o poder queira regular esse espaço onde narrativas se formam e se chocam. Mas convém perguntar: regulamentar para quê? Em teoria, o discurso oficial fala em proteger o usuário de abusos, fake news, discurso de ódio. Na prática, não são poucos os sinais de que o objetivo real pode ser bem mais restritivo — controlar o fluxo de informação, silenciar dissidências, proteger interesses próprios sob o manto da moralidade democrática.


Hannah Arendt já nos alertava que regimes autoritários não começam apenas com tanques nas ruas, mas com a manipulação da linguagem e da circulação da verdade. Quando o governo se coloca como o grande árbitro do que pode ou não ser dito, abre-se uma brecha perigosa para a censura velada. E não há algoritmo neutro quando quem o regula é o mesmo poder que teme a oposição.


A própria força do Bolsonarismo — ainda que enfraquecida nas ruas — revela por que a arena digital é tão disputada. Nas redes, surge o embate cru, o dissenso sem maquiagem. É lá que o discurso crítico encontra eco, que o meme satírico sobre ministros do Supremo viraliza mais rápido que uma nota oficial. É lá também que o governo, qualquer governo, percebe que não controla mais a narrativa sem ruído.


Para Chantal Mouffe, o conflito é vital: uma sociedade sem antagonismo degenera em administração de consenso, que não é democracia, mas gestão técnica dos afetos. E quando a regulação da internet deixa de ser proteção para virar vigilância de opinião, o que se anula não é só a liberdade de expressão, mas o próprio campo de disputas que mantém a política viva.


Portanto, não há como ignorar: regular a internet pode significar muito mais do que combater fake news ou proteger o cidadão comum. Em contextos de alta polarização, tende a se tornar um instrumento para calar vozes inconvenientes, esmagar minorias políticas e preservar o status quo de quem detém a caneta.


Enquanto isso, a rua — mesmo esvaziada — e a rede — mesmo tumultuada — permanecem sendo os últimos espaços onde o conflito, esse motor incômodo da democracia, pode ainda escapar ao controle.