Um acidente aéreo de grandes proporções ocorrido na última quinta-feira (12), na Índia, causou comoção internacional ao deixar 279 mortos — entre passageiros, tripulantes e vítimas em solo. A tragédia, no entanto, teve um único sobrevivente: Ramesh Hamesh, passageiro que estava na poltrona 11A de um Boeing 787 da Air India, que seguia de Ahmedabad para Londres.
A aeronave caiu pouco após a decolagem, permanecendo no ar por menos de um minuto. O impacto ocorreu nas proximidades de um alojamento estudantil, ampliando o número de vítimas fatais. Hamesh, resgatado com vida em meio aos destroços ainda em chamas, voltou a acender um antigo debate da aviação civil: existe um assento mais seguro em aviões?
Em entrevista ainda no hospital, o sobrevivente relatou que, por instantes, achou que não sairia vivo. "Senti o avião parar no ar, e logo depois veio a pancada", contou. O que impressiona é que o local onde ele estava sentado, próximo ao tanque central de combustível e às asas, é tradicionalmente considerado um dos mais suscetíveis ao fogo em acidentes desse tipo.
Especialistas apontam falhas operacionais
Enquanto a investigação oficial segue em andamento, especialistas em aviação já levantam hipóteses técnicas sobre as possíveis causas da queda. O comandante Ricardo Keeling, com quatro décadas de experiência como piloto e instrutor, observa indícios preocupantes.
Entre os fatores destacados estão: o uso de praticamente toda a pista para a decolagem — algo incomum para esse modelo de aeronave —, o não recolhimento do trem de pouso após a subida inicial, e uma possível retração incorreta dos flaps, estruturas fundamentais para manter a sustentação do avião em baixa velocidade.
Para Keeling, uma troca de comandos sob pressão pode ter contribuído decisivamente. "Já vi em simulações, durante situações de estresse, pilotos confundirem o recolhimento dos flaps com o do trem de pouso. Esse erro pode levar à perda imediata de sustentação", explicou.
Outro indício técnico apareceu em um vídeo que circula nas redes sociais, supostamente registrando os últimos momentos do voo. Nas imagens, seria possível ver o equipamento RAT (sigla em inglês para Turbina de Ar Ram), um gerador de emergência acionado automaticamente em casos de pane elétrica grave ou falha simultânea dos motores.
Existe um lugar mais seguro no avião?
A sobrevivência solitária de Ramesh, justamente em uma das áreas teoricamente mais vulneráveis, trouxe à tona a complexidade da discussão sobre segurança interna nas aeronaves. Embora estudos anteriores indiquem que os assentos traseiros podem oferecer uma chance ligeiramente maior de sobrevivência em alguns tipos de acidente, especialistas alertam que não existe uma regra absoluta.
"A dinâmica de cada acidente é diferente. O ponto de impacto, a velocidade da queda, o tipo de terreno e até a posição da aeronave ao colidir com o solo podem mudar completamente os resultados", afirma Keeling.
Entre o acaso e o trauma
Casos como o de Ramesh remetem a outros episódios emblemáticos da aviação, como o desastre da Chapecoense em 2016 e a queda do avião nos Andes em 1972. Sobreviventes dessas tragédias frequentemente relatam sentimentos ambíguos: alívio por estarem vivos e angústia por terem sido os únicos ou poucos poupados.
"Não sei como consegui sair de lá", declarou Ramesh, emocionado. Já para especialistas em psicologia do trauma, a recuperação emocional costuma ser longa, marcada por questionamentos existenciais. Por que ele sobreviveu? O acaso ou algo além?
Enquanto essas questões permanecem sem resposta, a análise das caixas-pretas da aeronave pode oferecer explicações concretas sobre o que levou o Boeing 787 ao colapso. Por ora, a história de Hamesh se junta ao seleto e angustiante grupo de sobreviventes solitários de grandes tragédias aéreas — lembrando que, por trás das estatísticas, há sempre vidas marcadas para sempre.