Lula abre Cúpula do Brics no Rio e aponta “colapso” do sistema multilateral
A abertura da Cúpula do Brics, realizada neste domingo no Rio de Janeiro, foi marcada por um discurso incisivo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que chamou a atenção para aquilo que definiu como um “colapso sem precedentes” do multilateralismo global. Para o presidente brasileiro, o Brics — hoje composto por 10 nações, entre elas potências como China e Rússia — tem o desafio de liderar a atualização das instâncias de governança internacional.
Durante a primeira plenária, restrita aos países-membros permanentes (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Indonésia, Emirados Árabes Unidos e Irã), Lula fez questão de ressaltar que o bloco carrega o legado do Movimento dos Países Não-Alinhados. Segundo ele, o cenário atual coloca em risco conquistas históricas como os acordos climáticos e comerciais que, na sua visão, estão sob ameaça.
Um dos principais alvos das críticas foi o Conselho de Segurança da ONU, que, de acordo com Lula, enfrenta uma crise de credibilidade e paralisia. Ele destacou também a decisão da Otan de ampliar seus gastos militares, movimento que, para o presidente, evidencia a escalada de tensões no cenário internacional.
A defesa da reforma do Conselho de Segurança, aliás, voltou a ganhar força. O tema, que é uma pauta histórica da diplomacia brasileira, deve constar de forma destacada na declaração final da cúpula, com apoio à inclusão de novos representantes, como Índia, Brasil e um país africano. Essa discussão, no entanto, ainda divide alguns integrantes do bloco, já que há disputas sobre quem representaria o continente africano.
Outro ponto sensível abordado por Lula foi a escalada de conflitos em diversas regiões do planeta. Ele cobrou novamente um cessar-fogo na guerra entre Rússia e Ucrânia — sem deixar de pedir abertura para negociações de paz — e classificou os ataques israelenses na Faixa de Gaza como um ato de genocídio. Reiterou, ainda, o posicionamento do Brasil em favor da solução de dois Estados para o conflito entre Israel e Palestina, ressaltando que o caminho para a paz passa necessariamente pelo fim da ocupação e pela criação de um Estado palestino viável.
Nos bastidores, segundo fontes diplomáticas, o tema gerou divergências entre os membros — em especial com o Irã, que não reconhece Israel como Estado. Apesar disso, prevaleceu o consenso de manter a posição oficial do bloco, que defende a solução de dois Estados, como já consta em documentos anteriores.
Ao longo dos próximos dias, a cúpula prossegue com novas plenárias e reuniões paralelas que devem reunir também países parceiros. A expectativa é de que o bloco saia do encontro com um posicionamento unificado sobre o futuro da governança global, reafirmando o compromisso com a multipolaridade e a autonomia frente às grandes potências ocidentais.
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