Pular para o conteúdo principal

Tarifaço de Trump contra o Brasil tem impacto menor que o temido, mas pressiona setores do agronegócio e eleva tensão política

31 de julho de 2025 | Edição Digital

Tarifaço de Trump impacta agronegócio brasileiro, apesar de isenções

Medida eleva tensões políticas e pressiona setores como carne e café

A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, inicialmente anunciada no início de julho, gerou receios generalizados quanto aos efeitos sobre a economia nacional. No entanto, o decreto oficializado em 30 de julho trouxe um alívio parcial ao excluir quase 700 produtos da sobretaxa, o que reduziu consideravelmente o impacto da medida. Ainda assim, a pressão permanece sobre setores-chave do agronegócio, enquanto o episódio acirra as tensões geopolíticas entre Brasília e Washington.

Isenções reduzem danos, mas não eliminam riscos

De um universo de cerca de 4 mil itens exportados pelo Brasil aos Estados Unidos, 694 foram isentos da nova tarifa de 40%, que se soma aos 10% já em vigor desde abril. Com isso, os produtos contemplados continuarão a pagar apenas a alíquota anterior.

Entre os segmentos beneficiados estão:

  • Aeronaves e peças aeronáuticas, como turbinas e motores — alívio importante para a Embraer, que destina 45% de sua produção ao mercado norte-americano.
  • Suco de laranja, no qual o Brasil lidera com 56% da fatia do mercado dos EUA.
  • Petróleo e derivados, que representaram US$ 7,96 bilhões em exportações brasileiras em 2024.
  • Minérios, celulose e fertilizantes, insumos cruciais para diversas cadeias industriais norte-americanas.

Impacto Econômico

A Câmara Americana de Comércio (Amcham) estima que essas isenções representam 43,4% do total exportado pelo Brasil aos Estados Unidos em 2024, o equivalente a US$ 18,4 bilhões. Com base nesse cenário, o banco Goldman Sachs revisou suas projeções, reduzindo a estimativa de impacto no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de 4% para apenas 0,15 ponto percentual.

Setores estratégicos ainda sob ataque

Apesar das isenções, alguns dos principais produtos do agronegócio não escaparam da nova tarifa e terão agora uma taxação total de 50%. Entre eles:

  • Carne bovina: os Estados Unidos são o segundo maior destino das exportações brasileiras de carne, e a estimativa é de perdas na ordem de US$ 1 bilhão apenas no segundo semestre deste ano.
  • Café: o Brasil detém cerca de 30% do mercado americano, mas pode perder espaço para concorrentes como Colômbia e Vietnã, que não enfrentam as mesmas restrições.
  • Frutas tropicais, como manga, também foram atingidas, com impactos potenciais nas cadeias de distribuição e renda de pequenos produtores.

Efeitos internos já começam a ser sentidos

As novas tarifas têm provocado reações indiretas no mercado doméstico:

  • Carne bovina: analistas apontam para uma tendência de alta nos preços internos, em razão da queda no abate, embora a demanda da China por menores valores possa causar uma baixa momentânea.
  • Café: a expectativa de uma safra recorde pressiona os preços para baixo, mas o risco de desinvestimento é crescente caso o cenário tarifário perdure.
  • Tilápia: produtores avaliam redirecionar parte da produção aos consumidores brasileiros, o que pode baratear o produto no curto prazo, mas levanta temores quanto ao excesso de oferta.

Medida política disfarçada de proteção econômica

No decreto que formaliza as tarifas, a Casa Branca justifica a ação como resposta a "ameaças à segurança nacional", mencionando diretamente o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, e o processo judicial que envolve o ex-presidente Jair Bolsonaro por suposta tentativa de golpe. Além disso, o governo Trump acusa o Brasil de censurar empresas de tecnologia norte-americanas e cometer violações de direitos humanos.

Especialistas apontam que as razões são majoritariamente políticas:

  • Pressão sobre o Judiciário brasileiro: Trump tenta influenciar o STF a suspender ou abrandar o julgamento de Bolsonaro, seu aliado político.
  • Guerra de influência internacional: a medida busca conter o avanço da China e da Rússia sobre o Brasil, sobretudo diante da aproximação do país com os BRICS e dos debates sobre transações em moedas alternativas ao dólar.
"Não é um tarifinho. Ainda há um impacto expressivo, e a negociação mais forte começa agora" Welber Barral, economista

Reação brasileira e negociações em curso

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou as novas tarifas como "injustificadas" e reafirmou seu compromisso com a independência do Judiciário. Apesar da crítica contundente, Brasília busca manter o canal diplomático aberto e articula um pacote de medidas para mitigar os danos econômicos, incluindo benefícios fiscais aos setores atingidos.

Entidades de classe ligadas ao agronegócio pressionam por novas rodadas de negociação para ampliar a lista de isenções, especialmente nos segmentos de carne e café.

Perspectivas e incertezas no horizonte

Embora o impacto do tarifaço tenha sido menor do que o inicialmente previsto, os efeitos práticos já começam a se manifestar — tanto nas exportações quanto na cadeia produtiva nacional. Com a eleição presidencial dos Estados Unidos marcada para 2026, o fator político tende a se intensificar nos próximos meses.

A medida marca mais um capítulo tenso na relação entre os dois países, revelando que, mesmo com exceções comerciais, a disputa geopolítica entre Washington e Brasília está longe de ser superada.