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Do presídio à guerra urbana: como o Comando Vermelho levou o Rio à maior operação policial da história

Policiais em operação no Complexo do Alemão durante a megaoperação contra o Comando Vermelho no Rio de Janeiro.
Forças de segurança cercam entradas de comunidades dominadas pelo tráfico na zona norte do Rio de Janeiro.

 

Comando Vermelho: das origens na Ilha Grande à maior operação policial da história do Rio de Janeiro

O Brasil assistiu, no fim de outubro de 2025, a uma das maiores operações policiais de sua história. Mais de 2.500 agentes das polícias Civil e Militar participaram de uma ofensiva contra o Comando Vermelho (CV), facção criminosa que nasceu dentro de um presídio carioca nos anos 1970 e se tornou uma das organizações mais poderosas e violentas do país. A chamada Operação Contenção, realizada nos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, reacendeu o debate sobre o crime organizado, a violência urbana e os limites da ação policial em áreas dominadas por facções.


As origens do Comando Vermelho
Vista aérea do Instituto Penal Cândido Mendes, na Ilha Grande, onde surgiu o Comando Vermelho nos anos 1970.
Corpos de suspeitos ligados ao Comando Vermelho são retirados após confronto com a polícia no Rio de Janeiro.

O Comando Vermelho surgiu em 1979 dentro do Instituto Penal Cândido Mendes, na Ilha Grande, litoral sul do Rio de Janeiro. Naquele período, o sistema prisional brasileiro misturava presos comuns — condenados por crimes como assaltos e roubos — com presos políticos da ditadura civil-militar. Essa convivência, forçada pelo Estado, criou um ambiente de troca de experiências que se tornaria o embrião da facção.

Os presos políticos ensinavam técnicas de organização e solidariedade, enquanto os criminosos comuns aprimoravam estratégias de resistência e comunicação. Dessa união improvável nasceu a chamada Falange Vermelha, formada inicialmente por nomes como Rogério Lemgruber, William da Silva Lima (o “Professor”) e José Carlos dos Reis Encina (“Escadinha”) — figuras que mais tarde se tornariam ícones do crime organizado no Brasil.

Uma rebelião ocorrida em 17 de setembro de 1979 consolidou o grupo dentro do presídio. A Falange Vermelha derrotou um grupo rival, assumiu o controle interno da prisão e deu origem à estrutura que se expandiria para fora dos muros, conquistando espaço nas favelas cariocas.

Moradores observam confronto entre policiais e traficantes em comunidade dominada pelo Comando Vermelho.

A expansão para as favelas e o domínio social

Durante os anos 1980 e 1990, o Comando Vermelho ampliou seu poder, especialmente no tráfico de drogas e no controle territorial de comunidades. A facção se fortaleceu em favelas do Rio de Janeiro, como o Complexo do Alemão, a Penha e a Rocinha, passando a exercer poder paralelo sobre milhares de moradores.

Mais do que uma organização criminosa, o CV criou um sistema de dominação que combinava medo, assistencialismo e pertencimento. Oferecia cestas básicas, ajudava famílias em dificuldade e financiava festas locais. Essa “política social do crime” gerava uma relação ambígua com as comunidades: de um lado, opressão armada; de outro, uma sensação de proteção e presença onde o Estado era ausente.

A partir dos anos 2000, o Comando Vermelho se expandiu para outras regiões do Brasil, especialmente o Norte e o Nordeste, entrando em conflito direto com o Primeiro Comando da Capital (PCC) — uma guerra silenciosa, mas constante, por rotas de drogas, armas e influência dentro do sistema penitenciário.


A Operação Contenção: o Rio em estado de guerra

Forças de segurança cercam entradas de comunidades dominadas pelo tráfico na zona norte do Rio de Janeiro.
Policiais em operação no Complexo do Alemão durante a megaoperação contra o Comando Vermelho no Rio de Janeiro.


Na manhã de 28 de outubro de 2025, o governo do Rio de Janeiro deflagrou uma ofensiva sem precedentes: a Operação Contenção, voltada para desarticular núcleos do Comando Vermelho nos complexos do Alemão e da Penha. A ação reuniu cerca de 2.500 agentes das polícias Civil e Militar, além de blindados e helicópteros, com o objetivo de conter o avanço da facção em territórios dominados.

De acordo com o balanço da Polícia Civil, divulgado no dia seguinte, 119 pessoas morreram e 113 foram presas, além da apreensão de dezenas de fuzis e grandes quantidades de drogas. A operação foi classificada como a mais letal da história do estado, superando inclusive as incursões realizadas nos últimos 15 anos.

Durante as horas de confronto, o Rio de Janeiro viveu uma rotina de guerra. Ônibus foram queimados e usados como barricadas, escolas suspenderam aulas e vias expressas precisaram ser interditadas. Moradores relataram intensos tiroteios e medo constante de sair de casa.


Repercussão e questionamentos
Polícia Civil e Polícia Militar do Rio atuam em conjunto durante operação contra o Comando Vermelho.
Blindados e helicópteros da Polícia Militar do Rio de Janeiro atuam em ação no Complexo da Penha.


Apesar da grande quantidade de prisões e apreensões, a Operação Contenção gerou forte repercussão nacional e internacional. Organizações de direitos humanos, a Defensoria Pública da União (DPU) e o Ministério Público Federal (MPF) solicitaram informações ao governo estadual sobre o planejamento da ação, a legalidade das mortes registradas e o cumprimento de protocolos de segurança pública.

Relatos de moradores apontaram que corpos foram encontrados em áreas de mata e removidos antes da chegada da perícia, levantando suspeitas sobre possíveis execuções e sobre a veracidade dos números oficiais. Diante disso, autoridades federais anunciaram o envio de uma comitiva de monitoramento ao Rio de Janeiro, com o objetivo de acompanhar as investigações e avaliar o impacto humanitário da operação.

O governador Cláudio Castro defendeu a ação, afirmando que o objetivo era “recuperar territórios dominados pelo crime” e que o Estado não poderia mais aceitar que facções controlassem o cotidiano de comunidades inteiras.


Um dilema que o Brasil ainda não resolveu

O caso reacende um dilema antigo: como enfrentar o crime organizado sem repetir a lógica da violência que o alimenta? Para especialistas em segurança pública, operações desse porte têm efeito imediato, mas dificilmente produzem mudanças duradouras. A ausência de políticas sociais, de oportunidades e da presença efetiva do Estado nas comunidades tende a recriar o ciclo de dominação das facções.

O surgimento do Comando Vermelho, no final da ditadura, e sua consolidação nas favelas cariocas refletem décadas de negligência social e fracasso institucional. A Operação Contenção, embora representativa da força policial, evidencia também a profundidade do problema: um modelo de segurança que combate os sintomas, mas enfrenta raramente as causas.

Corpos de suspeitos ligados ao Comando Vermelho são retirados após confronto com a polícia no Rio de Janeiro.
Corpos de suspeitos ligados ao Comando Vermelho são retirados após confronto com a polícia no Rio de Janeiro.


Mais de quarenta anos separam o nascimento do Comando Vermelho no presídio da Ilha Grande e a megaoperação de 2025. Nesse intervalo, o Rio de Janeiro viveu ascensões, recuos e tragédias marcadas pela violência. O que começou como uma aliança de sobrevivência entre presos tornou-se um império do crime que desafia o Estado brasileiro até hoje.

A Operação Contenção é um marco — não apenas pelo número de mortos, mas porque mostra o tamanho do desafio que o país enfrenta para restaurar a ordem em territórios esquecidos. O combate às facções exige mais do que fuzis e helicópteros: exige presença permanente, educação, justiça e políticas públicas que substituam o poder paralelo que o Estado deixou florescer.