Ministra Cármen Lúcia cita Emicida, Carolina Maria de Jesus e Castro Alves em voto contra o racismo no STF
Ministra Cármen Lúcia cita Emicida, Carolina de Jesus e Castro Alves em voto no STF e denuncia o racismo estrutural ainda presente no Brasil.Durante sessão no Supremo Tribunal Federal (STF), a ministra Cármen Lúcia fez um voto firme e simbólico contra o racismo estrutural no Brasil, recorrendo a trechos de obras e reflexões de Emicida, Carolina Maria de Jesus e Castro Alves para ilustrar a persistente desigualdade racial no país.
Logo no início, ela mencionou versos do rapper Emicida, destacando a barreira histórica imposta à população negra:
“Para eles, negros, até para sonhar tem trave. A felicidade do branco é plena, a felicidade do preto é quase.”
Em seguida, reforçou que não aceita viver em um país em que a Constituição seja interpretada de forma desigual:
“Eu não espero viver num país em que a Constituição para o branco seja plena e para o negro seja quase. Eu quero uma Constituição que seja plena igualmente para todas as pessoas.”
A ministra também citou outro trecho de Emicida, relacionando-o à violência policial e ao risco constante vivido por pessoas negras no Brasil:
“80 tiros me lembram que há a pele alva e há a pele alvo.”
Em tom categórico, afirmou que o país vive um “estado de coisas inconstitucional”, já que as medidas tomadas até agora não foram capazes de superar o racismo histórico:
“A insuficiência de todas as medidas tomadas até aqui não revela a superação do racismo estrutural sem resposta adequada.”
Cármen Lúcia retomou a voz forte de Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de Despejo, para lembrar o quanto a exclusão social ainda recai sobre a população negra:
“Não digam que sou da vida rebotalho, nem que fiquei à margem da vida. Digam que procurei trabalho, que sempre fui preterida.”
Para a ministra, essa preterição segue viva: “Não é possível continuar preterindo mais da metade da população brasileira por puro, grave e trágico racismo”.
Encerrando o voto, ela trouxe versos de Castro Alves, poeta abolicionista do século XIX, ao lembrar os horrores dos navios negreiros:
“Há um povo que a bandeira empresta para cobrir tanta infâmia e covardia.”
Cármen Lúcia afirmou que a Constituição não pode se tornar uma “mortália dos direitos” de negros, pardos e, sobretudo, das mulheres negras — que hoje sustentam a maioria dos lares brasileiros, muitas vezes de forma solitária.
Em sua conclusão, reforçou a urgência de garantir oportunidades reais para todos os brasileiros, especialmente jovens que hoje têm negado até mesmo o direito de sonhar:
“Nós queremos brasileiros que sonhem e que tenham o direito de sonhar.”
O voto da ministra ecoa como um chamado para que o Estado e a sociedade enfrentem, de forma efetiva, o racismo que atravessa a história do país e ainda define destinos.