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Marco Aurélio Mello reprova intervenção do STF no Senado e questiona validade da nova interpretação sobre impeachment

Marco Aurélio Mello reprova intervenção do STF no Senado e questiona validade da nova interpretação sobre impeachment
Marco Aurélio diz que Supremo vive “tempos estranhos” e que liminar sobre impeachment fere harmonia entre os Poderes


O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Marco Aurélio Mello, afirmou nesta quarta-feira (10) que o país vive “tempos estranhos” e que decisões recentes da Corte revelam “tristeza institucional”. Em entrevista ao Jornal Gente, da Rádio Bandeirantes, o magistrado aposentado criticou a adoção de um novo código de ética para magistrados, a intervenção monocrática sobre a Lei do Impeachment e o que chamou de “extravasa­mento” do Supremo sobre atribuições do Congresso.


Código de ética para magistrados: “Perplexidade”


Ao comentar a proposta do ministro Luiz Edson Fachin de instituir um código de conduta para juízes, Mello demonstrou surpresa.
Segundo ele, a existência da Lei Orgânica da Magistratura (Loman) já fornece parâmetros suficientes.

“Ética é inerente aos bons. Eu vejo com perplexidade a necessidade de um novo código, especialmente para tribunais superiores. Que tempos estranhos estamos a vivenciar.”

O ex-ministro lembrou que, historicamente, a postura do STF serve de exemplo para todo o Judiciário, reforçando que comportamentos inadequados se irradiam para outras instâncias.


Decisões que permitem julgamentos envolvendo familiares preocupam o ex-ministro


Ao ser questionado sobre decisões recentes que autorizam ministros a julgarem casos envolvendo familiares — ou a si próprios —, Mello foi categórico ao considerar tal prática incompatível com a tradição da Corte.


Ele citou seu próprio exemplo: durante seus 31 anos no STF, sempre se declarou impedido em processos que envolviam o escritório onde sua filha trabalhava.


“Devemos zelar pela instituição. Os integrantes passam, mas a instituição permanece.”

 

Liminar que altera a Lei do Impeachment: ‘Resposta desenganadamente negativa’


A crítica mais contundente da entrevista foi dirigida à decisão liminar de Gilmar Mendes, que alterou o quórum e as regras para pedidos de impeachment contra ministros do STF.


Marco Aurélio classificou a medida como violadora da independência entre os Poderes e lembrou que a Lei 1.079/1950 estava em vigência há mais de 70 anos.


“Indaga-se: é possível, em canetada única, retirar essa lei do cenário jurídico? A resposta é desenganadamente negativa.”

 

Ele defendeu que a reação deve partir do Senado e do próprio plenário do Supremo, reforçando que os 11 ministros devem se posicionar de forma colegiada, sem “filhotes de corpo”, expressão usada para criticar o corporativismo interno.


Impasse entre STF e Congresso sobre marco temporal


O ex-ministro também comentou o risco de choque institucional caso o Congresso aprove uma proposta de emenda constitucional reafirmando o marco temporal das terras indígenas ao mesmo tempo em que o STF julga ações que pedem a anulação da lei de 2023.


Para ele, a atuação dos Poderes deve respeitar fronteiras constitucionais:


“O Legislativo normatiza, o Executivo executa e o Judiciário, quando provocado, atua para tornar prevalecente a lei das leis.”

 

Segundo Mello, quando o STF avança além dos limites, “vai para a vitrine” e sofre desgaste junto à população.


Críticas ao comportamento de ministros e viagens com empresários


Questionado sobre ministros utilizarem jatinhos particulares de empresários investigados, o ex-magistrado classificou a prática como “extravagante” e “inaceitável”.


“Beira a promiscuidade. Não basta ser, é preciso parecer.”

 

A fala ocorreu no contexto de questionamentos sobre o ministro Dias Toffoli, que puxou para si o caso envolvendo o Banco Master e, na sequência, viajou em aeronave privada de um dos advogados do processo.


Mandato para ministros do STF: posição contrária


Embora reconheça críticas ao modelo atual, Marco Aurélio rejeitou a ideia de mandatos fixos para ministros do Supremo. Ele citou Rui Barbosa:


“A pior ditadura é a ditadura do Judiciário.”

 

Mello defendeu a manutenção do sistema como foi concebido originalmente, afirmando que mudanças poderiam elevar ainda mais o componente político na Corte.


“Alguma coisa está errada”: desgaste público da Corte


O ex-ministro também lamentou a hostilidade enfrentada hoje pelos integrantes do Supremo, que, segundo ele, não conseguem circular em espaços públicos sem forte aparato de segurança.



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“Nunca fui hostilizado em 31 anos de Supremo. Alguma coisa está errada.”

 

Para Mello, a crítica construtiva deve ser acolhida, e a Corte precisa refletir sobre seus erros para reconquistar credibilidade social.