Durante a abertura da 9ª reunião da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso contundente, no qual alertou sobre os riscos que ameaçam a soberania da América Latina e do Caribe e propôs caminhos concretos para fortalecer a região em meio a um cenário global de instabilidade. Com forte tom político e econômico, Lula pediu união, pragmatismo e ação coletiva para enfrentar desafios históricos e contemporâneos.
Uma região sob ameaça: a urgência da unidade
Lula iniciou seu discurso relembrando os avanços históricos dos países latino-americanos e caribenhos, como o fim da escravidão e a superação das ditaduras, mas destacou que a exclusão social, a fome e a miséria ainda persistem. “Agora, nossa autonomia está novamente em cheque”, alertou o presidente, denunciando a ingerência de potências estrangeiras e o risco da região se tornar uma “zona de influência” numa nova divisão geopolítica mundial.
Segundo ele, o momento exige que os países deixem de lado as diferenças e resgatem o espírito de cooperação que marcou os anos 2000, com a criação da Unasul e da própria CELAC. Citando o exemplo da União Africana e da reorganização da União Europeia, Lula destacou que a América Latina e o Caribe precisam definir seu papel na nova ordem global “que se descontinuará”.
Lula critica tarifas arbitrárias e defende integração regional na 9ª Reunião da CELAC
Três pilares para uma agenda comum
Lula propôs um programa de ação regional baseado em três grandes eixos: defesa da democracia, ação climática e integração econômica.
1. Defesa da democracia e do Estado de Direito
O presidente brasileiro defendeu o respeito à autodeterminação dos povos e afirmou que os períodos democráticos foram os mais produtivos na superação de desigualdades no Brasil. Ele criticou a disseminação de ódio e desinformação nas plataformas digitais, o negacionismo científico e o avanço de projetos autoritários, mencionando com preocupação as recentes tentativas de golpes de Estado na região.
Para ele, combater a fome e garantir o bem-estar são pré-requisitos para a segurança democrática. Lula citou o lançamento da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, proposta pelo Brasil durante sua presidência do G20, como parte de um esforço maior alinhado ao Plano de Segurança Alimentar da CELAC.
2. Ação coletiva frente à crise climática
No segundo eixo, Lula destacou a vulnerabilidade ambiental da região e convocou os países ricos a cumprir suas metas de redução de emissões e a fornecer financiamento adequado para a transição ecológica. Anunciou a criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre, que pretende remunerar países pela preservação de suas florestas, e reforçou o papel da COP30, que será sediada na Amazônia brasileira, como um evento de toda a América Latina e Caribe.
Lula também defendeu o uso sustentável da biodiversidade, das energias renováveis e das reservas de minerais críticos como uma oportunidade de desenvolvimento estratégico e soberano para a região.
3. Integração econômica e comercial
No campo econômico, Lula chamou atenção para o baixo índice de comércio entre os países da região (apenas 14% das exportações latino-americanas e caribenhas). Defendeu a reativação de mecanismos como o Convênio de Pagamentos e Créditos Recíprocos da ALADI e a ampliação do uso de moeda local nas transações comerciais.
Ele propôs ainda a integração das redes de transporte, energia e telecomunicações, e ressaltou a importância de fortalecer instituições financeiras regionais como o CAF, o Banco de Desenvolvimento do Caribe e o Fomplata para garantir financiamento a projetos de infraestrutura e cooperação.
Paz e soberania como valores centrais
Em sua fala, Lula reforçou a importância de manter a América Latina e o Caribe como uma zona de paz, repudiando guerras, genocídios e intervenções externas. Defendeu o fim do embargo a Cuba, o respeito à soberania da Venezuela e uma atenção urgente à crise social no Haiti. Para ele, fortalecer o multilateralismo e recuperar o papel diplomático da região, inclusive na ONU, é essencial para garantir estabilidade e voz própria no cenário internacional.
Um chamado à ação coletiva
Encerrando seu discurso, Lula propôs a criação de um grupo de trabalho para discutir as regras do consenso dentro da CELAC, sugerindo que o atual modelo está paralisando decisões importantes. Com isso, reforçou a ideia de que a integração da América Latina e Caribe não deve depender de alinhamentos ideológicos, mas de um projeto comum de desenvolvimento, justiça social e soberania.
“Contem com o Brasil para seguir construindo a nossa pátria grande”, finalizou Lula, em um chamado simbólico à união dos povos latino-americanos.
